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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

BICAS 1886 - INVENÇÃO DO BREAK A VAPOR



BREAK A VAPOR

O dia 15 de Abril de 1886 marca uma vitória para as Artes Nacionais; um grande cometimento acaba de realizar-se e isso devido à perseverança, ao engenho e á força de vontade de um modesto e hábil artista, o atual Chefe das Oficinas do Ramal da Serraria, o Sr. João Batista da Silva Castro, que inventou um BREAK a vapor para ser aplicado àss locomotivas de grande velocidade.
Procedeu-se, nesse dia, à experiência, perante um concurso de cerca de cem pessoas, todas elas habilitadas na matéria, e o resultado que presenciaram é um triunfo grandioso da Mecânica e uma brilhante conquista do trabalho - Cabe ao Sr. Castro, esse laureado artista, a inexcedível glória de ser o primeiro que imaginou e construiu, no Brasil, um freio a vapor, e as oficinas da Estrada Leopoldina, em Bicas, conquistou um nome glorioso entre as suas congêneres, pois, até hoje, em nenhuma outra estrada, se fez uma obra desta natureza.
Pelos seguintes resultados das experiências ver-se-á que o BREAK de invenção do Sr. Castro é um grande melhoramento, e uma garantia para aqueles que se deixam levar pela carreira vertiginosa desse monstro, chamado locomotiva.
Na 1.ª experiência, feita em uma rampa de 3% com uma velocidade do 30 quilômetros, depois de apertado o BREAK, o trem percorreu apenas a extensão de 138 metros.
Na 2.ª, em rampa de 2%, com velocidade de 30 quilômetros, percorreu somente 105 metros.
Na 3.ª, manobrando-se com o BREAK a vapor e o do TENDER, em rampa de 3%, com velocidade de 40 quilômetros, o trem parou completamente dentro de 80 metros.
Na 4.ª, trabalhando o BREAK a vapor e os do TENDER e de um carro, em rampa de 3%, com velocidade de 60 quilômetros, o trem parou de todo, depois de percorrer apenas 115 metros.
Na 5.ª, em linha de nível e com velocidade de 50 quilômetros, manobrando somente o BREAK a vapor, parou quase instantaneamente, percorrendo apenas 20 metros.
À vista destes dados, poder-se-á, doravante, viajar sem receio, nas estradas de ferro, desde que os maquinistas tenham em suas máquinas esse grande meio de segurança, inventado pelo Sr. Castro, a quem sinceramente felicitamos, pedindo que não descanse à sombra dos louros que colheu, pois muito se tem a esperar do seu robusto talento.

Jornal "O Mar de Espanha, ANO I N.º 8 de 25 de abril d 1886.

sábado, 6 de setembro de 2014

VIAGENS DE UM ESPÍRITO-SANTENSE À MINAS



VIAGENS DE UM ESPÍRITO-SANTENSE À MINAS
EM 1886

Peregrino, em terra estranha não posso furtar-me ao dever de dizer qualquer cousa em relação aos progressos da província de Minas, quanto á sua cultura, transformação do trabalho escravo e indústrias.
Limitar-me-ei a descrever esse rápido desenvolvimento somente dos lugares ondo a boa ou má sorte tem-me feito dar com os costados.
Começarei pelo Mar de Espanha. Esta populosa cidade, outrora denominada Cágado, a despeito das vias férreas que atraíram para suas Estações o concurso de todas as classes, não tem perdido um ceitil da antiga importância, porque pela vasta extensão de seu município, fertilidade do terreno e riqueza, dos lavradores, grande soma do capital converge em seu benefício. O patriotismo de todas as classes, quer de dentro da cidade, quer das imediações, está tão acentuado, que pondo à margem os desvarios da política, abraça-se e confraterniza-se todas as vezes quo o município precisa de seu concurso para o desenvolvimento moral, intelectual e industrial.
A lavoura do município é incontestavelmente uma das mais ricas da Província sendo a maior parte dos lavradores cafesistas. O terreno, conquanto |seja em sua maior parte frio, todavia, apesar do café ser tardio há compensação, pelas vantagens obtidas com as máquinas para seu preparo. Raro é o fazendeiro, ou mesmo situante que não disponha do um excelente maquinismo para preparo do precioso grão; de sorte que, se não fazem grandes colheitas de café, fazem bonitas colheitas de dinheiro, porque os cafés preparados em máquinas onde existem catadores, separadores e descascadores dão sempre (mesmo na baixa) de 1$000 a 1$500 mais do que os preparados pelo sistema ainda adotado em quase toda a Província do Espirito Santo.
Quanto ao complicado problema do elemento servil, já é questão ventilada pelos lavradores do Município do Mar de Espanha, salvo uma ou outra exceção. Acreditam todos que em 1890 pouco mais ou menos, esse cancro denominado escravidão terá deixado de existir, e nesta emergência muitos lavradores preparam casas pequenas e dependências como; pastos, cercas, etc. para os futuros colonos, que serão mesmo os libertos. Não é raro ver-se lavradores com pequenas lavouras de parceria, divididas entre os ex-escravos, e estes satisfeitos.
Já tenho ouvido de diversos lavradores, que é impossível contar-se com colonos estrangeiros, que deles não necessitamos; porque de entre os escravos que forem educados de harmonia com o século que nos rege, sairão os verdadeiros colonos, e que têm direito de amar a sua pátria, abençoar seus benfeitores e obter um nome e posição na sociedade que façam esquecer as amarguras do começo de sua existência.
Bem sei que esta ideia de colonizar libertos não está do acordo com o que pensam os briosos paulistas, mas em todo o caso denota humanidade; porque considerando os fazendeiros daqui, que a raça Etíope é sempre menos pesada, precisam de patrocínio, para que mais tarde não se tornem homens perigosos e prejudiciais à sociedade.
A E. de F. União Mineira que parte da Estação da Serraria e vai entroncar com a Leopoldina ao lugar (Pequena Estação) denominado Ligação ao pé de Ubá; corta o Município do Mar de Espanha; havendo no Município 3 Estações (se não me engano): Santa Helena, São Pedro e Bicas. Esta última fica 3 ou 4 quilômetros distante do arraial do Espirito Santo do Mar de Espanha e é onde funcionam as oficinas da Estrada de Ferro. Nas Bicas é admirável o movimento comercial, pois bem longe está de parecer uma Estação, mais parece-se uma povoação de arrabaldes da Corte, pela elegância, beleza da localidade e movimento: tem dois médicos, duas farmácias, colégios de ambos os sexos, fábricas, uma excelente Igreja, jardins, etc.
O movimento da Estação, isto é, a exportação de café por aquela Estação é excessiva, não só dos cafés do Município, corno mesmo de muitos lavradores de São João Nepomuceno, pois que a Estação das Bicas está na divisa da freguesia do Espirito Santo com São João Nepomuceno.
A Estação das Bicas, sendo uma das mais rendosas da via-férrea União Mineira, veio satisfazer uma das mais palpitantes necessidades dos habitantes circunvizinhos; no entretanto a inauguração dessa Estação veio aniquilar, se não matar o antigo arraial do Espirito Santo, berço de uma grande parte de lavradores, capitalistas e proprietários que hoje moram na Província do Espirito Santo.
Em todo o caso, apesar da derrota que sofreu o arraial, não decaiu de todo, e hoje, graças aos esforços dos srs. Com. Antônio José Gomes Bastos, Cap. José Antônio de Oliveira, comendador Daniel Joaquim Vaz Ferreira, Antônio José Bastos Pinto e outros o arraial vai tomando novo alento tendo-se reconstruindo a antiga Matriz, que ameaçava ruir, canalizado as águas que transpunham a povoação, e, enfim, procuram reabilitá-la.
A indústria sacarina no Município do Mar de Espanha não é desenvolvida, mas em todo o caso ela existe. A fundação de um engenho Central no limite do Município com São João Nepomuceno, daria grande alento ou, muita vida ao Município. O lugar mais apropriado, segundo opiniões de lavradores práticos será nas proximidades das Bicas, onde os terrenos cansados só prestam para o café com muitos sacrifícios, dependendo dos lavradores mandarem estrumá-los como estão fazendo; e para o cultivo da cana dispensaria esse pesado trabalho, isto é, com arado se preparava o terreno.
Esquecia-me de dizer: os lavradores de café neste Município aproveitam (e dizem que com vantagem) a casca do café, e espalham-na pelos cafezais, dizendo eles ser o melhor esterco. Para mim é uma novidade isto, e se algum dia for fazendeiro hei de experimentar.
Termino tendo em mão o "Mar de Espanha" jornal que se publica na cidade do mesmo nome. É de pequeno formato, imparcial e bem redigido sondo seus redatores diversos. Está no 1.º ano de existência e tem grande circulação.

Fazenda da Serra, Minas, 10 de Novembro de 1886
Orestes


Jornal "O Cachoeirano", 26 de dezembro de 1886

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

BICAS - 1911

BICAS
          É para nós fora de duvida que as grandes medidas devem partir das camadas mais inferiores, mais sabedoras das necessidades que as afligem até chegarem às culminâncias do poder para, dali, irradiarem as providencias tendentes á melhoria dessas condições.
          É por isso que aqui nos achamos como que conscientes que pugnamos uma grande medida e que esposamos uma causa das de maior monta.
          Bicas é um lugar fadado para melhor sorte.
          Servida pela Estrada de Ferro Leopoldina, e um empório comercial de grande importância, fomentando transações com os numerosos lugares circunvizinhos.
          Sua população, de cerca de 18.000 habitantes, vive do mais enobrecedor trabalho, laborando todos para o engrandecimento progressivamente crescente do lugar.
          A Cooperativa Agrícola de Bicas é uma das mais importantes do Estado, já pela sua criteriosa direção, já pelo resultado pratico que vai dando.
          Fabricas de cerveja e bebidas, de macarrão, de balas e biscoitos, engenhos de beneficiar café e arroz, são os fomentadores da industria local, que, não obstante a atual crise que tudo avassala, vão dando o resultado que esperavam dar.
          O seu grupo escolar é um dos mais bem organizados do Estado e funciona em um belo prédio exclusivamente feito para o fim. A frequência escolar é, sobretudo, exagerada para o numero de cadeiras existentes.
          Expostos perfunctoriamente, estes dados são a prova mais convincente da aspiração a mais ardente do povo de Bicas; é a elevação do lugar á categoria de vila.
          Não falece a menor disposição para isso: população, comercio, industria, tudo temos; as mais ricas, as mais abundantes fazendas estão localizadas no distrito. Como então não se pensar nisso?
          De nada serve o progresso incessante e palpável de um lugar?
          A vida social de um núcleo tende sempre a progredir e vai, de um modo iniludível, provando á saciedade que a contingência que a assoberba não deve mais existir.
          É justíssima a preocupação dos habitantes de Bicas nesse particular.
          Do lado constitucional nada impede que a elevação se faça.
O tempo exigido para a decorrência de um ato a outro é de 10 anos.
          Bicas foi constituída em distrito com; o desmembramento da freguesia de Guarará, do município de Mar de Espanha, em 5 de dezembro de 1890.
          São decorridos, portanto, 20 anos. Lapso de tempo mais do que bastante para a evidenciação do progresso de um lugar.
          Ao governo do Estado, agora que se cogita da reorganização dos seus municípios, endereçamos estas linhas que são o veiculo da aspiração máxima dos habitantes de Bicas.
Na Justiça amparam a medida alvitrada, como em ansiosa expectativa aguarda a sua solução.
Com a mais viva satisfação podemos adiantar que dentro em breve teremos um grande melhoramento: iluminação elétrica.
          Com esse empreendimento de salutar alcance, indústrias jazida na inatividade e pela míngua de força, ressareirão esse tempo perdido em prejudicial modorra e lançarão os seus proveitosos movimentos.
E não só isso: o benefício extraordinário de espancar as  as trevas e concorrer para um policiamento, já de sobra é a motivo para o cogitamento do alcance da eletricidade e a sua imprescindível necessidade.
Bicas espera da boa vontade do Sr. presidente da Câmara a sua eficassíssima interferência junto ao governo para a consecução deste melhoramento de grande monta.
          - do correspondente.

Jornal "Gazeta de Notícias", ANNO XXXVI, N. 41
Rio de Janeiro, sexta-feira, 10 de fevereiro de 1911