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sábado, 6 de setembro de 2014

VIAGENS DE UM ESPÍRITO-SANTENSE À MINAS



VIAGENS DE UM ESPÍRITO-SANTENSE À MINAS
EM 1886

Peregrino, em terra estranha não posso furtar-me ao dever de dizer qualquer cousa em relação aos progressos da província de Minas, quanto á sua cultura, transformação do trabalho escravo e indústrias.
Limitar-me-ei a descrever esse rápido desenvolvimento somente dos lugares ondo a boa ou má sorte tem-me feito dar com os costados.
Começarei pelo Mar de Espanha. Esta populosa cidade, outrora denominada Cágado, a despeito das vias férreas que atraíram para suas Estações o concurso de todas as classes, não tem perdido um ceitil da antiga importância, porque pela vasta extensão de seu município, fertilidade do terreno e riqueza, dos lavradores, grande soma do capital converge em seu benefício. O patriotismo de todas as classes, quer de dentro da cidade, quer das imediações, está tão acentuado, que pondo à margem os desvarios da política, abraça-se e confraterniza-se todas as vezes quo o município precisa de seu concurso para o desenvolvimento moral, intelectual e industrial.
A lavoura do município é incontestavelmente uma das mais ricas da Província sendo a maior parte dos lavradores cafesistas. O terreno, conquanto |seja em sua maior parte frio, todavia, apesar do café ser tardio há compensação, pelas vantagens obtidas com as máquinas para seu preparo. Raro é o fazendeiro, ou mesmo situante que não disponha do um excelente maquinismo para preparo do precioso grão; de sorte que, se não fazem grandes colheitas de café, fazem bonitas colheitas de dinheiro, porque os cafés preparados em máquinas onde existem catadores, separadores e descascadores dão sempre (mesmo na baixa) de 1$000 a 1$500 mais do que os preparados pelo sistema ainda adotado em quase toda a Província do Espirito Santo.
Quanto ao complicado problema do elemento servil, já é questão ventilada pelos lavradores do Município do Mar de Espanha, salvo uma ou outra exceção. Acreditam todos que em 1890 pouco mais ou menos, esse cancro denominado escravidão terá deixado de existir, e nesta emergência muitos lavradores preparam casas pequenas e dependências como; pastos, cercas, etc. para os futuros colonos, que serão mesmo os libertos. Não é raro ver-se lavradores com pequenas lavouras de parceria, divididas entre os ex-escravos, e estes satisfeitos.
Já tenho ouvido de diversos lavradores, que é impossível contar-se com colonos estrangeiros, que deles não necessitamos; porque de entre os escravos que forem educados de harmonia com o século que nos rege, sairão os verdadeiros colonos, e que têm direito de amar a sua pátria, abençoar seus benfeitores e obter um nome e posição na sociedade que façam esquecer as amarguras do começo de sua existência.
Bem sei que esta ideia de colonizar libertos não está do acordo com o que pensam os briosos paulistas, mas em todo o caso denota humanidade; porque considerando os fazendeiros daqui, que a raça Etíope é sempre menos pesada, precisam de patrocínio, para que mais tarde não se tornem homens perigosos e prejudiciais à sociedade.
A E. de F. União Mineira que parte da Estação da Serraria e vai entroncar com a Leopoldina ao lugar (Pequena Estação) denominado Ligação ao pé de Ubá; corta o Município do Mar de Espanha; havendo no Município 3 Estações (se não me engano): Santa Helena, São Pedro e Bicas. Esta última fica 3 ou 4 quilômetros distante do arraial do Espirito Santo do Mar de Espanha e é onde funcionam as oficinas da Estrada de Ferro. Nas Bicas é admirável o movimento comercial, pois bem longe está de parecer uma Estação, mais parece-se uma povoação de arrabaldes da Corte, pela elegância, beleza da localidade e movimento: tem dois médicos, duas farmácias, colégios de ambos os sexos, fábricas, uma excelente Igreja, jardins, etc.
O movimento da Estação, isto é, a exportação de café por aquela Estação é excessiva, não só dos cafés do Município, corno mesmo de muitos lavradores de São João Nepomuceno, pois que a Estação das Bicas está na divisa da freguesia do Espirito Santo com São João Nepomuceno.
A Estação das Bicas, sendo uma das mais rendosas da via-férrea União Mineira, veio satisfazer uma das mais palpitantes necessidades dos habitantes circunvizinhos; no entretanto a inauguração dessa Estação veio aniquilar, se não matar o antigo arraial do Espirito Santo, berço de uma grande parte de lavradores, capitalistas e proprietários que hoje moram na Província do Espirito Santo.
Em todo o caso, apesar da derrota que sofreu o arraial, não decaiu de todo, e hoje, graças aos esforços dos srs. Com. Antônio José Gomes Bastos, Cap. José Antônio de Oliveira, comendador Daniel Joaquim Vaz Ferreira, Antônio José Bastos Pinto e outros o arraial vai tomando novo alento tendo-se reconstruindo a antiga Matriz, que ameaçava ruir, canalizado as águas que transpunham a povoação, e, enfim, procuram reabilitá-la.
A indústria sacarina no Município do Mar de Espanha não é desenvolvida, mas em todo o caso ela existe. A fundação de um engenho Central no limite do Município com São João Nepomuceno, daria grande alento ou, muita vida ao Município. O lugar mais apropriado, segundo opiniões de lavradores práticos será nas proximidades das Bicas, onde os terrenos cansados só prestam para o café com muitos sacrifícios, dependendo dos lavradores mandarem estrumá-los como estão fazendo; e para o cultivo da cana dispensaria esse pesado trabalho, isto é, com arado se preparava o terreno.
Esquecia-me de dizer: os lavradores de café neste Município aproveitam (e dizem que com vantagem) a casca do café, e espalham-na pelos cafezais, dizendo eles ser o melhor esterco. Para mim é uma novidade isto, e se algum dia for fazendeiro hei de experimentar.
Termino tendo em mão o "Mar de Espanha" jornal que se publica na cidade do mesmo nome. É de pequeno formato, imparcial e bem redigido sondo seus redatores diversos. Está no 1.º ano de existência e tem grande circulação.

Fazenda da Serra, Minas, 10 de Novembro de 1886
Orestes


Jornal "O Cachoeirano", 26 de dezembro de 1886

terça-feira, 5 de março de 2013

Francisco Otaviano Gomes, Cel.

Coronel Francisco Otaviano Gomes (1846-1914)
Belo Horizonte perdeu, sexta-feira (30 de outubro de 1914), com o falecimento, aos 68 anos de idade, do coronel Francisco Octaviano Gomes, um dos seus mais prestimosos, dignos e honrados habitantes, "nosso distinto conterrâneo e cavalheiro, por todos os títulos, diário da estima e da consideração publica, que nunca lhe faltaram."
De algum tempo a esta parte o extinto cidadão fora acometido de pertinaz enfermidade, que lhe debilitou o organismo forte, vindo, finalmente, a falecer ao meio-dia de 30, em sua residência, á rua Sergipe, 220.
Logo que foi conhecida a triste noticia em belo Horizonte, afluíram á casa da família do finado numerosos amigos, que foram ali levar os seus pêsames.
Bom, honrado, exemplar chefe de família, cidadão prestimoso, o coronel Otaviano Gomes era muito estimado na capital mineira.
O coronel Francisco Octaviano Gomes era natural da Vila do Espirito Santo do Mar de Espanha (Guarará), onde nasceu a 31 de agosto de 1846 e onde morou durante muito tempo. (1)
Depois de algum tempo, ele transferiu-se para São João Nepomuceno, onde, além de um abastado fazendeiro, foi um dos fundadores (1a) e, posteriormente chefe do Partido Liberal, (1b) ao qual era filiado e político de grande prestigio, exerceu vários cargos de eleição e públicos, dentre os quais o de juiz de órfãos em exercício (1c) e de suplente de juiz municipal, conforme nomeação de 15 de janeiro de 1883. Os nomeados foram o Dr Maurício Murgel, ele Francisco e Ricardo Francisco da Rocha suplentes de juiz municipal, respectivamente nos 1º, 2º e 3º distritos especiais (1d) (1e) (*) e no ano seguinte ele foi nomeado como primeiro suplente do juiz municipal da mesma comarca, para o quatriênio 1884/1888. (1f)
Residiu durante certo tempo e, provisoriamente, em Ouro Preto (1g) talvez ou de certo porque fora (ou seria) designado para servir ao 1º batalhão de infantaria da guarda nacional de Ouro Preto, como tenente comandante do 35º batalhão da mesma arma, da comarca de Rio Novo onde estava agregado. (1h) No início de 1889 ele se encontra com a família da cidade de Ouro Preto e em setembro ele tem sua transferência. (1i)
Morou durante certo número de anos na cidade de Barbacena, exerceu aí, durante muitos anos o cargo de vereador. Foi mais tarde nomeado pelo Dr. Bias Fortes tesoureiro da Estrada de Ferro Bahia e Minas, emprego que, posteriormente, deixou para fixar residência na Cidade de Minas (provavelmente 1900/1901???), depois chamada de Belo Horizonte, onde montou um escritório de procuratórios (procurador de partes) à rua Frei Santa Rita Durão. (2)
Na nova capital mineira foi eleito membro do conselho deliberativo do Externato do Ginásio Mineiro, quando era reitor o Dr. Gustavo Pena, (3tendo deixado da sua passagem vivos traços de trabalho e de zelo. Foi também integrante do Conselho Deliberativo do município de Belo Horizonte, do qual faziam parte igualmente, o Dr. Levindo Ferreira Lopes (Presidente), Dr. Olinto Meireles (Vice-presidente), o comendador José Duarte da Costa Negrão, o major José Benjamin (Secretário), o major Antônio de Paula Ferreira e o Dr. Salvador Pinto. (4) (5)
Foi ainda suplente do juiz federal e tesoureiro da Santa Casa de Misericórdia e fazia parte da mesa administrativa do S. S. Sacramento da Boa Viagem.
Casado por duas vezes, deixa nove filhos. (7)
Do primeiro casamento com Maria Moreira Portes, os filhos: Lopo Gomes, Galeno Gomes e Eurico Gomes, importantes comerciantes no Rio de Janeiro; Otávio Gomes, estudante e as  Exmas. Sras. Dona Nízia Gomes, esposa do capitão Antonio Carlos Gomes, fazendeiro no distrito de Bicas, município de Guarará; Carlota Abranches, esposa do Sr. Frederico Abranches, industrial em Barbacena. 
Do segundo casamento com Amaziles Vidal Gomes,  (**) ficam os filhos: Dr. Jarbas Vidal Gomes, advogado nesta capital (Belo Horizonte), Francisco Vidal Gomes, funcionário da secretaria das finanças do estado de Minas Gerais e Amintas Gomes, estudante.   
Deixa também três irmãos, entre os quais o venerando barão de Catas Altas, residente em Bicas e lavrador importante na Mata.. (6)

Referências
1 - Diário de Minas, ANNO I, Nº 214, sábado, 13 de abril de 1867
1a - Jornal "O Liberal Mineiro", ANNO V, Nº 120, Ouro Preto, 29 de setembro de 1882;
1b - Jornal "A União", ANNO II, Nº 192, Ouro Preto 28 de julho de 1888;
1c - Jornal "A Provincia de Minas", ANNO I (Novo período), N. 2, Ouro Preto, 17 de julho de 1880;
1d - Jornal "O Pharol", ANNO XVII, Nº 13, Juiz de Fora, terça-feira, 30 de janeiro de 1883;
1e - Jornal "O liberal Mineiro", ANNO VI, Nº 8, Ouro Preto, 23 de janeiro de 1883;
1f -  Jornal "O liberal Mineiro", ANNO VII, Nº 33, Ouro Preto, 22 de março de 1884;
1g -  Jornal "A União", ANN III, N. 252 - Ouro Preto, 27 de fevereiro de 1889;
1h - Jornal "Diário de Minas", ANNO I, Nº 214, Juiz de Fora, sábado, 21 de setembro de 1889;
ii - Jornal "A Provincia de Minas", ANNO IX, N. 573, Ouro Preto, 7 de março de 1889;
2 - Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro - 1891 a 1940. Ano: 1901, pag. 1340; ano: 1902, pag. 1338; ano: 1903, pag. 1357; ano: 1904, pag. 1225; ano: 1905, pag. 1734; ano: 1906, pag. 1511; ano: 1907 2875;
3 - Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro - 1891 a 1940. Ano 1903, pag. 1354; ano: 1904, pag. 1221; ano: 1905, pag. 1729; ano: 1906, pag. 1509; ano: 1907, pag. 2873; ano: 1908, pag. pg 2060;
4 - Jornal "O Pharol", ANNO XXXVIII, Nº 699, Juiz de Fora, 8 de outubro de 1903; 
5 - Jornal "O Pharol", ANNO XXXVIII, Nº 688, Juiz de Fora, 25 de setembro de 1903;
6 - Jornal"O País", 2 de novembro de 1914, pg. 4 e 5.
7- Acréscimo de dados colhidos com familiares.

Notas
(*) Em 15 de janeiro de 1883, foi criado o foro civil da recém criada cidade de São João Nepomuceno (criada em 25 de outubro de 1881), sendo o município dividido em três distritos. O primeiro (1º) distrito compreendia a freguesia de São João Nepomuceno e o distrito de Santa Bárbara (atual Carlos Alves), o segundo (2º) distrito compreendia a freguesia de Santíssima Trindade do Descoberto (atual Descoberto) e o terceiro (3º) distrito de paz de Nossa Senhora das Dores de Monte Alegre (atual Taruaçu). - Revista do Archivo Publico Mineiro - 1896 a 1900; Para o ano de 1889, pg 572;

(**) Amazile Vidal Gomes, morre no ano seguinte, em 8 de abril de 1915. (Jornal "O Imparcial" ANNO IV, N. 834, quinta-feira, 15 de abril de 1915); Jornal "Correio da manhã", ANNO XIV, N. 5893. Rio de Janeiro, quarta-feira, 14 de abril de 1915; Jornal "Correio da manhã", ANNO XIV, N. 5894. Rio de Janeiro, quinta-feira, 15 de abril de 1915.